24/06/2005

Aquelas palavras pesadas

(3 de Julho de 2004)
Onde se guarda o Adoro-te?
Onde se esconde o Amo-te?
Para que servem afinal?
É alimento o amor que damos? Ou é fome?


Dou comigo muitas vezes a pensar no que fazer com o peso do que sinto. Quando não temos alvo para atirar, nem corpo para carregar de nós. Onde metemos o adoro-te quando já ninguém o quer ouvir? Ou quando já ninguém o merece? As palavras não morrem com os seus destinos. Mudam de morada, de corpo, não morrem. Mas quando as enviamos para parte incerta, sem nome no destinatário, será que elas acertam na porta? Será que não se perdem pelo caminho. Eu perco-me todos os dias e trago um Amo-te agarrado a garganta que não sai, não mata e não morre.

(excerto de uma carta)

20/06/2005

Faz de conta...

Às vezes tenho vontade de mandar tudo ao ar. De deitar tudo a perder. De esvaziar os bolsos todos de todas as coisas que conquistei. Às vezes acho que a vida que levo é a vida que criei.

E depois, volta e meia, apareces tu.
Sais dos meus sonhos. Sem pedir. Entras e sais. Achas que a minha alma é tua?
Fazes do meu corpo teu palco. E cantas…

Fazes de conta que sempre estiveste aqui. Fazes de conta que ainda vens a tempo de cumprir todas as promessas que eu já esqueci. Fazes de conta que és meu.

e eu tantas vezes, estúpida, acredito


Fazes de conta que não vais embora. Mesmo quando já me viraste as costas.
Fazes de conta que a culpa é minha. Sempre minha. Que fui eu que não te soube amar.

só não sabe amar quem pelo menos ama


Fazes de conta que a razão é tua. Sempre tua. Só tua. Quando sais a fingir que ficas deixas sempre para trás qualquer coisa para voltares. E voltas sempre.
Fazes de conta que voltas.

Às vezes, quando em noites frias sinto o calor da tua mão, por baixo de uma mesa de café qualquer, sinto vontade de fazer de conta que sou tua. De fazer de conta que não tenho vida. Que não inventei uma outra história para mim onde tu não entras. Tenho vontade de fazer de conta que deito tudo a perder para fazer de conta que fico contigo para sempre.
Às vezes… Às vezes canso-me do faz de conta que é a minha vida e apetece-me acreditar em tudo aquilo que tu fazes de conta que é real.
Como podemos andar tão trocados?
Como nos podemos enganar tanto?
Como nos perdemos, meu amor?



E fazemos de conta que não nos queremos. Fazemos de conta que temos uma vida normal, que somos felizes.
Fazemos de conta que… Fazemos de conta que vivemos.

No dia que fizeres de conta que vais partir para sempre, eu vou fazer de conta que não me vou importar…

E todas as lágrimas que vires, faz de conta que são de quem não as sabe mais guardar.

Já não sei mais fazer de conta que sou aquilo que não quero ser.
Morri no dia em que fiz de conta que não te queria mais.

Toranja - Contos
Não posso ser só eu a dar sentido à razão
Vais ter que vir tu e arrancar-me a escuridão
É que ás vezes quem vence fica sempre a perder
Vamos deixar de usar armas no que queremos ser.

Mas tens que escrever quem vês em mim
Vais ter que contar quanto dás por nós
Sem mais Contos de embalar.

Não podes ser só tu a dar sentido ao buraco
Se não te queres lembrar do que sentiste no fundo
Agora tens que vir tu saciar-me os segredos
Porque é fácil de mais o que me queres vender.

Mas tens que escrever quem vês em mim
Vais ter que contar quanto dás por nós
Sem mais Contos de embalar.

Mas tens que escrever quem vês em mim
Vais ter que contar quanto dás por nós
Vais ter que despir o que tenho a mais
Por ver sempre tudo a desconstruir
Por cima da raiz que nunca sai
Que volta a crescer por não parar

Que volta a crescer por ser maior
Voltou a crescer sem avisar!
Sem mais Contos de embalar.

19/06/2005

Meia perdida... Meia achada

Um passo ao lado, ou um susto mal pregado.
Um salto sem fundo e sem impulso. Sem chão. Sem céu.
Meia desencontrada do caminho. Meia perdida e meia achada.
Um não saber estar parada.
Uma busca de uma ilusão. Dos sonhos todos que estão na mão.
Uns olhos fechados. Uns braços esticados.
Meia embaraçada. Meia perdida e meia achada

Mal eu sabia que a vida nos rouba os sonhos...

11/06/2005

Nunca sabes ao certo se te magoas

Sais e voltas a entrar. Arranjas-te e voltas a sair. Sempre com pressa. Tropeças, cais. Rasgas-te toda. E nunca sabes ao certo se te magoas, porque no fundo voltas sempre a cair. É normal em ti. És tu assim. Em cada passo trocado encontras-te, inventas-te e dizes sempre a sorrir que és assim.
Não te importas com as nódoas negras que a vida te vai deixando nos joelhos. Nem te incomoda as mãos arranhadas. Tens as calças todas rasgadas e nem dás conta. Sempre com pressa de tropeçar noutra esquina. Sempre sem medo de te magoares, porque no fundo, nem sabes ao certo se te magoas.
Já conheces o chão de cor. Já lhe sabes o cheiro. E gostas. Ou então gostas de fazer de conta que gostas, para não terem pena de ti quando te virem estendida no chão depois de mais um passo enganado.
Cais e levantas-te, só para mais tarde teres o prazer de cair outra vez. Vives a tropeçar nas pedras, nos degraus, nas pernas dos outros, nas tuas. Vives a vida a lamber o chão. E finges que gostas. E nunca sabes ao certo se te magoas.
Já conheces o caminho de cor e salteado para todos os sítios que podes ir, mesmo assim não consegues não tropeçar. Deve ser essa tua mania de ir a dançar. Essa tua mania de estar sempre a olhar as gaivotas. Deve ser essa tua mania de te atirares para o chão, para fingir que não sofres, para fingir que és forte. Só para tu acreditares.

Feita bailarina de papel, que dança trocada, desacompanhada. Feita boneca de cristal, que se parte em cada queda só para se poder montar toda outra vez. Feita princesa. Feita mulher.

Feita eu…

09/06/2005

O último acto - Acto contínuo

Acordei.
O céu estava frio, ferido de tanto azul. O sol envergonhado. E as nuvens, calmas, passavam devagar, como pinturas com asas.

As gaivotas invadiram me os ouvidos com cânticos de final de dia, manchando o céu de reflexos dourados. O sol desaparecia e dava lugar aquela hora de sonhos cor-de-rosa.
Acabará de acordar.

Sai a rua.
Com os sonhos todos amarrados nos olhos.
Pousei as asas em casa e sai mais leve. Mais minha.
Não desejei levantar voo. Não pedi para me ensinarem a voar. Não inventei palavras para criar momentos elevados. Nem pintei horas para nos escondermos do mundo.
Foi o que sou.
[aqueles raros momentos de sinceridade eterna]
Não me menti, não me inventei, não me fingi.




O último acto acabou com as suas merecidas palmas. As cortinas fecharam. A sala esvaziou. Já passará tempo demais atrás das cortinas a espera de uma nova actuação. Acabou o teatro. Desceu do palco. Largou lá o seu fato de gaivota.
Deu-se ao mundo.
Afinal agora era só ela com os seus pés no chão.



Agora sou só eu com os meus pés no chão.
No acto contínuo da vida.

Viver.

E é tão bom…

03/06/2005

Fui eu que bati a porta?

Lembro-me só do barulho ensurdecedor da madeira velha. Do vaso velho que não quebra.
Não sei se fui eu que sai, se entrei, se voltei.
Lembro-me só que não me deste um beijo. Que não te beijei. Não te beijo mais.

Que quero o teu beijo. Mais.

Eu não ouvi. Tu disseste. Mas eu não ouvi. Chamaste-me de volta. Não voltei.
Sabes desde sempre que eu nunca sei o caminho de volta.
Desenho nos teus sonhos um mapa para me achares.
Tu não me achas. Não me procuras. Só me chamas. Mas eu não me sei achar. E já disse que não sei voltar.

Eu tento. Mas perco-me sempre.

Se quiseres, vais ter de desamarrar os pés do chão. Vais ter de te mexer. Agitar. Viver. Voar.
Se quiseres

Não precisas de procurar, eu estou aqui

Encontramo-nos num desses céus azuis, infinitos de prazer. Onde as nuvens fazem cócegas nos pés dos que sabem a altura do amor.


27/05/2005

Não me arrependo, meu amor, não me arrependo, mas que eu aprendo podes crer que eu aprendo.



Os dias todos iguais, com cheiros sempre diferentes, os olhares todos trocados de quem bebe palavras trazidas pelo vento. As mãos sempre vazias, cansadas de procurar um apoio, sujas de lamber tanto chão, queimadas pelo sol dos dias todos que não foram vividos. As esperas inúteis e apressadas. Tu não voltas…
O chão sempre igual, sem segurança. Frio, húmido e sombrio. E a terra abre-se em fendas despropositadas, em quedas desequilibradas até ao fundo das fendas sem fundo. Em noites sem lua e dias sem sol, em horas apontadas, marcadas, desenhadas para serem vividas da forma que não as vivemos.
O Sol explode no meu olhar, a terra rebenta dentro de mim, a lua arde no alto do céu.
É fogo a agua que há em mim.
É queda cada passo incerto inventado para te encontrar. Tu não voltas…
E se não voltas porque é espera cada segundo que vivo? Porque será que vejo as horas correrem ao contrário? A demência das horas ausentes.

[...]

E ela ficou lá numa rocha qualquer ali encalhada. Olhou o mar e partiu…
A voar…

[...]

Tu não voltas... e eu já não te espero, meu amor.

23/05/2005

Se decidires partir

Se tiveres de partir escolhe um dia de nevoeiro,
ou esconde-te atrás do fumo da fogueira onde queimaremos as cartas que não escrevemos,
as fotografias que não tiramos e os abraços que prometemos (Sim, queimam-se abraços, todos os dias, junto das promessas).
Se tiveres de partir, parte.
Não precisas de desculpa nem motivo, parte só, num silêncio estúpido que eu não perceba.
Parte sem jeito, e com a mesma pressa que chegaste.
Se tiveres de partir, escolhe partir por ti.
E se não souberes escolher o dia deixa que eu escolha por ti.
Parte com a determinação de quem não volta, nem que seja para voltar.
E se ao caminhares para longe te der aquele aperto no coração lembra-te que já partiste e que todos os passos contrários seriam voltar, e tu nunca voltas quando sabes que partiste.
Mesmo que saibas que eu espero e mesmo por saberes que eu espero que voltes.
Não voltes.
E se voltares que não seja para mim, nem por mim, nem por ti porque tu não és egoísta.
Que voltes pelo sol daqui, pelas estrelas que baptizamos, pela lua que pousou nua sobre o mar só para nós.
Que voltes… Mas não fiques.

…Se decidires partir…

06/05/2005

Encontros como sempre

Já não te via há alguns anos. Estas igual, igual a sempre. Gostei de te ver, como sempre. Já não sei bem de que falamos, mas aposto que tivemos as conversas de sempre, os risos sempre iguais aos de sempre. Aposto que me empurraste uma ou duas vezes com as mãos, como sempre fazias quando querias que me chegasse a ti. Lembro-me do abraço que demos, daqueles que damos sempre, apertados, fundos, nossos, sempre só nossos. Sei que me pegaste na mão como se afinal sempre a tivesses segurado. Sei que senti o que sinto sempre, aquilo que sempre vou sentir, para sempre.
É bom ter-te de volta, as vezes, como se fosse para sempre.
Só nós sabemos o sempre que temos…

Dá me a tua mão e vamos ser alguém, a vida é feita para nós

E voltas a sair e eu volto a ficar sozinha... como sempre afinal fico sempre no final...

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