11/11/2005

O beijo

Ela andava sempre apressada, como se soubesse de cor todos os caminhos que podia tomar, como se o destino fosse uma enorme linha recta. Andava sempre assim e, normalmente, acabava por tropeçar, nos outros e tantas vezes nela própria.

Ele andava perdido, de mãos a abanar cheio de nadas. Tal marinheiro na tempestade. Rumo: Terra. Caminho: Indefinido. Sem pressa. Cheio de certezas de finais felizes.

E ela só queria que por uma só vez ele viesse a correr atrás dela. E que ela não o sentisse, não o ouvisse, não o cheirasse, que ela de forma alguma não o pressentisse. Ela só queria ser tomada de surpresa. E que por uma só vez fosse ele a correr atrás dela. Que a tomasse nos braços, num assalto. E de olhos fechados a beijasse. E que o beijo lhe trouxesse de presente o nome dele, num segredo.

[Sim, meu amor, os beijos têm nomes, de pessoas, e de todos os sentimentos. O teu, revela-te a cada segundo e tem nome de todos os sentimentos. Os bons, os maus, os que nos fazem crescer e ate daqueles que nos fazem ficar muito pequeninos. Os meus lábios só querem provar os teus. A doce amargura que te encerra. E deixar-te provar, por uma só vez, o suave veneno que me inunda.]

Ela só queria ser tomada de assalto. Dançar no ultimo compasso.
Ela só queria ser uma dádiva… Que fosse tomada. Roubada. Resgatada. Só queria que fosse assim. Pela vontade exterior de quem mora, afinal, tão cá dentro.

E na última nota, da banda sonora do momento desejado, ela só queria misturar o veneno com o amargo.

25/10/2005

Disse que morria quando nos visse morrer...
Ainda não morri e já não sei de nós. Disse tanta coisa que agora não importa que pouco há para dizer.

Não nos vi morrer, porque não morre o que não tem vida. E nós, hoje sei, nunca passamos de um nós inventado no desespero de nos tornarmos reais. Hoje alegro-me por nunca termos passado disto, de um sonho, de uma vontade inutil de existencia, por necessidade, por conforto, por nos acharmos perfeitos de tão imperfeitos que sempre fomos.
Hoje sei. E fico feliz por te ver longe. Por te ter longe. Por não te querer perto.

Hoje escrevo, porque já não sinto. E escrevo o que quis sentir.
Hoje invento um pouco mais da nossa história por saber que o fim já passou e que eu já nem me importo com isso.


Vi-te por lá, onde as gaivotas desenham corações e cantam ao vento as suas canções. Ias sozinho e eu não te parei. Ias sozinho e sorrias muito. Aprendeste a voar sozinho a ser feliz sozinho. E eu fiquei feliz. Por conseguirmos, finalmente, atingir a felicidade. Sem histórias. Sem desejos. Ias sozinho... A sorrir muito.
Não me viste, já não me ves mais. Ias com os sonhos todos nos olhos. Talvez por isso não me tenhas visto, porque eu já não faço parte desses sonhos e já não me importo, nem um pouco.
O ceu está muito azul, e o vento sopra fraco e nós voamos no mesmo ceu, na mesma felicidade com sonhos diferentes, com caminhos diferentes.
Somos finalmente livres das histórias que inventamos. Livres de nós. Somos finalmente nós. Eu e tu. Sem ligação, nem vontade nenhuma de cairmos outra vez no erro de nos querermos.


Vi-te por lá, sorrias muito e trazias os sonhos todos amarrados nos olhos.
Eu ia por lá... Mais minha que nunca.
Feliz...

17/10/2005

Lembram-me mil músicas e refrões para exprimir o que sinto a cada dia, sempre tentei ter uma música para cada momento, tornar eterno o irrepetivel e passageiro o que me faz sofrer...
Hoje só ouço uma, que me agonia e faz sentir frágil( doce palma, nem tu), q me inferniza e não me deixa pensar, agir ou mudar...
parece a valsa de um homem carente, uma feiticeira ou uma qualquer outra escrita por uma chaga....
Fogem os verbos e as metáforas, rendo-me ao teclado e escrevo de dentro d uma alma, não vai ser lindo, poético ou carinhoso e terno. Apenas o partilhar com alguém o que nem sei ser meu...
A cada momento relembro uma frase de um refrão, aquela frase, aquele refrão...
Disse em tempos que queria ter sido eu a inventar essa frase, que era a melhor de todas, uma alma nua.
Agora na solidão em que me encontro so queria que ela não existisse para eu não a querer ter inventado, fura-me as entranhas, sei que a vou escrever no fim do texto e por isso o alongo interminavelmente para não ter que a escrever...
Porquê palma???
porque tens que ter sempre razão?
Podia ser o só ou a fragil, o jeremias ou o tempo dos assassinos.....
podia não ser e seria bem mais facil, menos doloroso, mais conveniente...
parei 5 minutos para um cigarro ouvindo a mesmo infernizante música, ela não vai embora ao contrário de quem amo, a ela não a desiluso ou magoo, não me diz que tou errado ou faz pensar que estou certo,
ÑÃO LHE MINTO....
parei 15 minutos, pa conversar com um colega que nada sabe, só a música sabe, só ela me conhece neste momento, só ela e tu...
Mas a ti não te tenho e ela não me larga...
PARA NUNCA MAIS TENTAR MENTIR....

12/10/2005

Emaranhado de mim

Selei num segredo os momentos todos do mundo. Guardei por lá as horas certas. Os beijos. As promessas. Num segredo que murmurei ao vento em tom de brincadeira.
Chovia. Chovia muito e o céu era muito cinzento. Decidi que era hora. E embrulhei-me toda em palavras. Fiz um segredo do tamanho do mundo e contei-me ao vento. Ninguém ouviu. A chuva era forte. E o meu grito foi abafado pelos sons do mundo. Gritei baixinho. Gritei muito. Gritei muito alto.
Nada.

Embrulhei-me num segredo que ninguém ouve, que ninguém quer saber. E agora vejo-me fechada em mim. A tropeçar nas linhas que inventei. Cheia de enredos e de histórias encantadas que eu não vivi.
Vejo-me por cá. Longe do mundo, longe de mim. Num segredo que me apaga aos poucos e que já não sei confessar. Perdi as forças para gritar. Ou então perdi a vontade de me mostrar.
Eventualmente ninguém me quer saber.
Por isso, hoje, sou só eu neste meu segredo, estúpido, cheio de mim que me apaga aos poucos e que me faz menos eu.

Um dia tropeço em mim, num canto qualquer onde fiquei a dançar numa balada sem fim, e fico por lá, no sítio dos segredos a ver-me dançar. Ate ao amanhecer, ou o resto da vida. E esqueço-me de mim, do que fiz de mim… Do que quiseram fazer de mim.

É fácil viver a sonhar, com os pés longe do chão frio…
Alegremente livres… Tristemente sós…

08/10/2005

Tipo folha... Tipo nada

Sinto-me, indiscutivelmente, inútil. Como as folhas, afinal, que cansadas do verão se deixam cair no chão. É tipo folha mesmo. Em queda permanente. Em voo descontinuo, marcado pela bondade do vento. Tipo folha. Seca. Quase morta.
Não que sofra de algum mal indubitavelmente sério. Ou de um qualquer mal banal. Não sofro de nada. Desaprendi de sofrer… E, drasticamente, desaprendi de sorrir. Foi inevitável a anulação dos sentidos. A quase anulação de mim. A quase total anulação de mim. Pouco importo. Desaprendi de sofrer e por isso hoje sou inútil e não sofro por tal.
Sou folha, seca, quase morta, em queda permanente. Eventualmente nem sou nada disto, porque as folhas não são assim tão inúteis como eu.

E eu sonho. E não vejo as folhas a sonhar. Não que alguma vez alguém me veja a sonhar. Mas eu sonho. Juro que sonho. E sonho muito
Mas sou inútil. Os sonhos são inúteis… E as noites em branco também.

Tipo folha que voa ate cair ao chão.
E morro devagar numa queda permanente a que os optimistas chamam de voar. Ate ao dia em que bato duro no chão e perco de vez os sentidos e deixo de sentir que sou inútil.
No dia em que os sonhos acabam.
E deixo de ser tipo folha e passo a ser tipo nada…

29/09/2005

Que se lixem as poesias. Os textos bonitos. As histórias encantadas. Que se lixem as princesas e as fadas. Que se lixem os finais felizes.

O mundo não é bonito, nem feliz na sua generalidade.
A vida não é fácil, nunca ninguém disse que era. Mas também ninguém me disse que era tão difícil. A vida também não é bonita. Nem tão pouco feliz. A vida é dia. É noite. É qualquer altura onde existe ser. Onde pode ser. Onde tem de ser. A vida é morte lenta. É sorrisos. É flores. E é um montão de coisas bonitas que sem as coisas feias não seriam bonitas. E a vida é isso. É morte lenta. É o outro lado do dia sem ser noite. É a tristeza. As lágrimas. E um montão de coisas feias. A vida é tudo. E quase nada. Tão pouco que não chega a nada.



A vida é morte lenta…
Quero-me esquecer de acordar. E fingir que a noite é eterna. Que a luz se apagou infinitamente num sopro estranho que me gelou a alma.
E morrer devagar, como uma vela que chega ao fim. Sem o sol para me envergonhar. Sem medo de não acordar. Por saber que é eterna a noite, ou a cegueira, ou a falta de luz e de calor.
Vazia.
Casca vazia ou coisa nenhuma.
Fim
Fim ou nada
Tudo ou nada
Tudo e nada
Coisa vazia
Quase ninguém.

24/09/2005

confusões

na simplicidade da tua consciência e frontalidade de pensamento encontrei a paz..........
admiro-te pela fragilidade do pensamento, por seres volátil e indecisa, pela força a intensidade da opinião, pela resposta rápida e justa, pela personalidade incerta mas certa, rapida mas inconstante, pos saberes como dizer e fazer e nao o saberes assim tanto, por sim e não..
pelo doce e amargo, por tudo e nada, por não te perceber e saber como pensas, por dizeres tudo quando não dizes e por falares tanto que me fazes não perceber nada...
Admiro-te por não seres igual a ti e por seres tão transparente, por migrares para longe e me exigires tão perto, por me fazeres sofrer e por me sentir amado, por ser e não ser, por ter a certeza que contigo ficarei mas a cada momento ter medo de te perder, por estar bem mas saber que fica algo por dizer, por seres sincera e ocultares , por arriscar mas sempre com todas as cautelas, SUAVE CONSTANCIA INCONSTANTE QUE ME TOLHE A ALMA...
AMO-TE

KIKO...

22/09/2005

Pouco importa

Cruzo os braços e arrasto os passos. Não desisto. Eventualmente, nem há nada para se desistir.
Não se criou nada.
Nada.

Vendo bem pouco importa agora. Os traços apagaram-se com o tempo. Sobram uns rabiscos, uns esboços de tudo o que tínhamos para construir. As coisas que nunca realizamos. Aquelas que pouco importam agora.
Pouco importa o tempo. As horas. Os dias. E ate os anos. Agora… Agora que já nada há, nada importa.

Que se lixem os passados, as histórias (encantadas ou não), que se lixem os sonhos, as mentiras.
Que se lixe o amor…
Cruzo os braços e arrasto os passos. Pouco importa.
Que se lixe o amor… O amor que não sinto só porque alguém o inventou para mim.
Que se lixe o que eu inventei… O que eu disse… O que eu não tive coragem de construir…

E ter a alma nos olhos que não querem olhar mas que não deixam nunca de ver. E ter os sonhos nas pontas dos dedos prontos a contarem uma história.
E ter vida. Muita vida. E ter esperança…
E coragem.



Cruzo os braços e arrasto os passos. Pouco importa.
Não é este o caminho que escolhi.

E ter vida
E coragem



Mafalda Veiga - Fragilidade

Talvez pudesse o tempo parar
Quando tudo em nós de precipita
Quando a vida nos desgarra os sentidos
E não espera, ai quem dera

Houvesse um canto pra se ficar
Longe da guerra feroz que nos domina
Se o amor fosse um lugar a salvo
Sem medos, sem fragilidade

Tão bom pudesse o tempo parar
E voltar-se a preencher o vazio
É tão duro aprender que na vida
Nada se repete, nada se promete
E é tudo tão fugaz e tão breve

Tão bom pudesse o tempo parar
E encharcar-me de azul e de longe
Acalmar a raiva aflita da vertigem
Sentir o teu braço e poder ficar

É tudo tão fugaz e tão breve
Como os reflexos da lua no rio
Tudo aquilo que se agarra já fugiu
É tudo tão fugaz e tão breve.

12/09/2005

Assim...

Assim

Hoje, e só hoje
Olha-me
Como se fossemos duas crianças
Abre muito os olhos
Como só tu sabes fazer

Assim


E diz que me amas

Assim



[Hoje as gaivotas voaram meias perdidas num ceu azul novo, quase branco, e cantaram, cantaram muito, tanto que já não se ouviam]

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