13/12/2005

Vi no espelho o reflexo
do retrato
de uma coisa qualquer chamado
efeito.
Dei nome ao acaso...
defeito.

Virei costas ao destino, quando o achei perfeito.

Voltei a página e li de novo.
Caí no erro fonético
de achar poético
o sonho do outro.
Não me engano
quando o erro é sagrado.
Quando é pecado santo.
Santo erro que cometo.
Não me meto entre o reflexo.
Entre o fonema do poema
que é contrario ao verso.
Sai disperso.
E já não o vejo.
O reflexo.
Solta a brisa a melodia
Do quase profano
Quase divino
Erro sagrado
Que cometo a cada dia

Virei costas ao destino, quando o achei perfeito.

O defeito
do efeito
do reflexo
do retrato
do espelho…
Eras tu

04/12/2005

Hoje que posso ser quem quiser... Sou tua

A chuva parou e fiz deste silencio nocturno o ponto de partida que precisava.
Nada. Não se ouve nada. E é deste nada absurdo que tudo começa.
Já não sei de mim. Perdi-me numa rua qualquer na vida de alguém. Mania minha de me entregar toda de uma vez e de me abandonar em vez de fugir. Hoje sei que fiquei por lá, não sei é bem onde.

Nada. Coisa nenhuma. Vazia.
Nada. Silencio. Vazio.

Não sei de mim. O que me dá uma certa mobilidade. Hoje posso ser quem quiser. E é neste nada despropositado que me invento. Hoje tudo começa no nada. E o nada que sou é tudo o que tenho.


(Re)Invento-me.
Hoje posso ser quem quiser.
Escolher o caminho que quiser.

Abandonei-me no caminho de alguém e, por lá ficarei eternamente – pelo menos por lá ficara o que eu fui um dia. – Hoje já não sou quem era. E já nem sei de mim.

Não se ouve nada. Escolho o vazio para me encher.
Alinho as fotografias todas. Vejo-lhes a cara. E escolho um. Ao acaso. Ao som do coração (porque não deixo de ser romântica, mesmo quando deixo de ser quem sou).
Ainda não lhe sei o nome. Não lhe conheço o cheiro.

Guardo a fotografia dele no bolso. Encho-me agora de esperança. E torno-me caçadora neste meu novo papel. Ele não me conhece a cara.
Hoje posso ser quem quiser
E eu quero ser dele… Sem limites e sem autorização. É assim que me crio de novo, para voltar a me abandonar um dia mais tarde. Quando a esperança desabitar o meu corpo.

Hoje sou dele… E serei dele para sempre. Porque no final eu fico sempre por lá.

Porque somos sempre dadivas na vida dos outros. Porque temos de nos saber dar, para um dia podermos receber.

Eu – soma de todos os eus que já perdi – continuo a espera de alguém que caia despropositadamente na minha vida. Como um (feliz) acaso. Uma dadiva. Que venha para ficar sem me pedir nada. Que me tire o sossego. O fôlego. E que me faça viver. Sonhar. Que me faça sua sem pedir.

Obrigada por teres vindo, obrigada por te deixares caçar. Hoje sou tua. E és sem duvida a dadiva que reservaram para mim.
Hoje posso ser quem quiser… Só não me posso perder mais.
Hoje sou eu completa. Em ti. Em mim. Como nunca.

28/11/2005

É assim que te deixo quando sei que não te deixo para sempre

Quando chegas, como se fosse sempre a primeira vez, trazes na mão os sonhos todos que me fazem adormecer.
E não te amo. Não te amo mais, já não sei amar mais.
E por isso, quando chegas, com os sorrisos todos do mundo e cheio de histórias de encantar, digo-te para voltares depois, noutra altura, noutro tempo.

E hoje é só mais um dia em que tu chegas, sem autorização, em que me roubas do mundo por um momento apenas

[porque a vida, meu amor, a vida é feita de momentos e enfeitada de sentimentos que fingimos conhecer]

Tu chegas, agarras-me com a violencia toda que te ensinaram, e nunca me magoas. Mesmo quando os teus olhos gritam de raiva, quando as tuas mãos se perdem no meu corpo. Não me magoas. Perdeste as forças para me magoar e eu perdi as forças para sofrer por ti.

E chegas, como se fosse sempre a primeira vez, e eu deixo-te brincar. Fazes de conta que es principe e que me vens salvar de qualquer coisa. Não há cavalos alados, nem banda sonora. Eu e tu.
Tu na tua vontade quase infantil de me fazeres tua e eu na minha vontade estupida de te fazer sonhar só mais uma vez, só para depois te ver cair. Como gosto de te ver no chão, meu amor.

Acabamos sempre a brincadeira exaustos. Tu exausto de me amar e eu exausta de te fazer cair. Não sei qual de nós mente melhor.
Não sei qual de nós terá razão.

Sei que me agarras, que me finges tua.
Sei que no final te deixo sozinho, numa cama qualquer sem cheiro, de corpo gelado e alma vazia.
É assim que te deixo quando sei que voltas amanha. E só por saber que voltas.

É assim que te deixo quando sei que não te deixo para sempre

15/11/2005

surpresas.....

Descubri em mais uma banal conversa de café que tenho uma inegável capacidade para me surpreender, reviver pessoas, encontrar virtudes onde sei haver defeitos, sonhar, percebem??
A questão é mesmo essa, só seremos felizes se virmos a não realidade, o sonho a cada esquina, a surpresa...
Surpreendo-me a cada folha caida, a cada olhar de soslaio, a cada nascer e por do sol, a cada riso de uma criança.....
Quero ver algo novo a cada passo, nunca saber o que vem porque ai acomodo-me e incrivelmente vivo na esperança de nunca me conhecer, de nunca te conhecer, de nunca saber como vou ou vais reagir...
Desconfortável? Sem dúvida que sim mas tão mais verdadeiro, sincero e glorioso...
Imaginem um mundo onde nada nos surpreende, nem sequer o riso de uma criança..
Teriamos menos risco, menos dor, menos choro, mas também menos alma, menos sonho, menos vida...
Sejamos então o que vier, de alma aberta, sentindo sempre que os sonhos são renováveis e capazes de ser melhorados, sem medo, sem prudência, batendo de frente, levando para traz mas sempre sabendo que um dia vai resultar, um dia vamos conseguir, vamos ser felizes....
Vamos ser felizes??? queria dizer-vos que sim mas nunca o saberei e se soubesse já não era surpresa e já não seria feliz, não correria atras de mim sem me querer conhecer...
Mais uma vez me vejo embrenhado num sei lá de letras e frases, sinto assim que chega a hora de vos deixar...
Surpreendes-me sempre amor.....

11/11/2005

O beijo

Ela andava sempre apressada, como se soubesse de cor todos os caminhos que podia tomar, como se o destino fosse uma enorme linha recta. Andava sempre assim e, normalmente, acabava por tropeçar, nos outros e tantas vezes nela própria.

Ele andava perdido, de mãos a abanar cheio de nadas. Tal marinheiro na tempestade. Rumo: Terra. Caminho: Indefinido. Sem pressa. Cheio de certezas de finais felizes.

E ela só queria que por uma só vez ele viesse a correr atrás dela. E que ela não o sentisse, não o ouvisse, não o cheirasse, que ela de forma alguma não o pressentisse. Ela só queria ser tomada de surpresa. E que por uma só vez fosse ele a correr atrás dela. Que a tomasse nos braços, num assalto. E de olhos fechados a beijasse. E que o beijo lhe trouxesse de presente o nome dele, num segredo.

[Sim, meu amor, os beijos têm nomes, de pessoas, e de todos os sentimentos. O teu, revela-te a cada segundo e tem nome de todos os sentimentos. Os bons, os maus, os que nos fazem crescer e ate daqueles que nos fazem ficar muito pequeninos. Os meus lábios só querem provar os teus. A doce amargura que te encerra. E deixar-te provar, por uma só vez, o suave veneno que me inunda.]

Ela só queria ser tomada de assalto. Dançar no ultimo compasso.
Ela só queria ser uma dádiva… Que fosse tomada. Roubada. Resgatada. Só queria que fosse assim. Pela vontade exterior de quem mora, afinal, tão cá dentro.

E na última nota, da banda sonora do momento desejado, ela só queria misturar o veneno com o amargo.

25/10/2005

Disse que morria quando nos visse morrer...
Ainda não morri e já não sei de nós. Disse tanta coisa que agora não importa que pouco há para dizer.

Não nos vi morrer, porque não morre o que não tem vida. E nós, hoje sei, nunca passamos de um nós inventado no desespero de nos tornarmos reais. Hoje alegro-me por nunca termos passado disto, de um sonho, de uma vontade inutil de existencia, por necessidade, por conforto, por nos acharmos perfeitos de tão imperfeitos que sempre fomos.
Hoje sei. E fico feliz por te ver longe. Por te ter longe. Por não te querer perto.

Hoje escrevo, porque já não sinto. E escrevo o que quis sentir.
Hoje invento um pouco mais da nossa história por saber que o fim já passou e que eu já nem me importo com isso.


Vi-te por lá, onde as gaivotas desenham corações e cantam ao vento as suas canções. Ias sozinho e eu não te parei. Ias sozinho e sorrias muito. Aprendeste a voar sozinho a ser feliz sozinho. E eu fiquei feliz. Por conseguirmos, finalmente, atingir a felicidade. Sem histórias. Sem desejos. Ias sozinho... A sorrir muito.
Não me viste, já não me ves mais. Ias com os sonhos todos nos olhos. Talvez por isso não me tenhas visto, porque eu já não faço parte desses sonhos e já não me importo, nem um pouco.
O ceu está muito azul, e o vento sopra fraco e nós voamos no mesmo ceu, na mesma felicidade com sonhos diferentes, com caminhos diferentes.
Somos finalmente livres das histórias que inventamos. Livres de nós. Somos finalmente nós. Eu e tu. Sem ligação, nem vontade nenhuma de cairmos outra vez no erro de nos querermos.


Vi-te por lá, sorrias muito e trazias os sonhos todos amarrados nos olhos.
Eu ia por lá... Mais minha que nunca.
Feliz...

17/10/2005

Lembram-me mil músicas e refrões para exprimir o que sinto a cada dia, sempre tentei ter uma música para cada momento, tornar eterno o irrepetivel e passageiro o que me faz sofrer...
Hoje só ouço uma, que me agonia e faz sentir frágil( doce palma, nem tu), q me inferniza e não me deixa pensar, agir ou mudar...
parece a valsa de um homem carente, uma feiticeira ou uma qualquer outra escrita por uma chaga....
Fogem os verbos e as metáforas, rendo-me ao teclado e escrevo de dentro d uma alma, não vai ser lindo, poético ou carinhoso e terno. Apenas o partilhar com alguém o que nem sei ser meu...
A cada momento relembro uma frase de um refrão, aquela frase, aquele refrão...
Disse em tempos que queria ter sido eu a inventar essa frase, que era a melhor de todas, uma alma nua.
Agora na solidão em que me encontro so queria que ela não existisse para eu não a querer ter inventado, fura-me as entranhas, sei que a vou escrever no fim do texto e por isso o alongo interminavelmente para não ter que a escrever...
Porquê palma???
porque tens que ter sempre razão?
Podia ser o só ou a fragil, o jeremias ou o tempo dos assassinos.....
podia não ser e seria bem mais facil, menos doloroso, mais conveniente...
parei 5 minutos para um cigarro ouvindo a mesmo infernizante música, ela não vai embora ao contrário de quem amo, a ela não a desiluso ou magoo, não me diz que tou errado ou faz pensar que estou certo,
ÑÃO LHE MINTO....
parei 15 minutos, pa conversar com um colega que nada sabe, só a música sabe, só ela me conhece neste momento, só ela e tu...
Mas a ti não te tenho e ela não me larga...
PARA NUNCA MAIS TENTAR MENTIR....

12/10/2005

Emaranhado de mim

Selei num segredo os momentos todos do mundo. Guardei por lá as horas certas. Os beijos. As promessas. Num segredo que murmurei ao vento em tom de brincadeira.
Chovia. Chovia muito e o céu era muito cinzento. Decidi que era hora. E embrulhei-me toda em palavras. Fiz um segredo do tamanho do mundo e contei-me ao vento. Ninguém ouviu. A chuva era forte. E o meu grito foi abafado pelos sons do mundo. Gritei baixinho. Gritei muito. Gritei muito alto.
Nada.

Embrulhei-me num segredo que ninguém ouve, que ninguém quer saber. E agora vejo-me fechada em mim. A tropeçar nas linhas que inventei. Cheia de enredos e de histórias encantadas que eu não vivi.
Vejo-me por cá. Longe do mundo, longe de mim. Num segredo que me apaga aos poucos e que já não sei confessar. Perdi as forças para gritar. Ou então perdi a vontade de me mostrar.
Eventualmente ninguém me quer saber.
Por isso, hoje, sou só eu neste meu segredo, estúpido, cheio de mim que me apaga aos poucos e que me faz menos eu.

Um dia tropeço em mim, num canto qualquer onde fiquei a dançar numa balada sem fim, e fico por lá, no sítio dos segredos a ver-me dançar. Ate ao amanhecer, ou o resto da vida. E esqueço-me de mim, do que fiz de mim… Do que quiseram fazer de mim.

É fácil viver a sonhar, com os pés longe do chão frio…
Alegremente livres… Tristemente sós…

08/10/2005

Tipo folha... Tipo nada

Sinto-me, indiscutivelmente, inútil. Como as folhas, afinal, que cansadas do verão se deixam cair no chão. É tipo folha mesmo. Em queda permanente. Em voo descontinuo, marcado pela bondade do vento. Tipo folha. Seca. Quase morta.
Não que sofra de algum mal indubitavelmente sério. Ou de um qualquer mal banal. Não sofro de nada. Desaprendi de sofrer… E, drasticamente, desaprendi de sorrir. Foi inevitável a anulação dos sentidos. A quase anulação de mim. A quase total anulação de mim. Pouco importo. Desaprendi de sofrer e por isso hoje sou inútil e não sofro por tal.
Sou folha, seca, quase morta, em queda permanente. Eventualmente nem sou nada disto, porque as folhas não são assim tão inúteis como eu.

E eu sonho. E não vejo as folhas a sonhar. Não que alguma vez alguém me veja a sonhar. Mas eu sonho. Juro que sonho. E sonho muito
Mas sou inútil. Os sonhos são inúteis… E as noites em branco também.

Tipo folha que voa ate cair ao chão.
E morro devagar numa queda permanente a que os optimistas chamam de voar. Ate ao dia em que bato duro no chão e perco de vez os sentidos e deixo de sentir que sou inútil.
No dia em que os sonhos acabam.
E deixo de ser tipo folha e passo a ser tipo nada…

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