02/10/2008

No plano que traçaste para atravessar a minha vida, esqueceste-te do principal, do pedido de autorização. E quando já moravas no meu espaço, tiveste vergonha de voltar ao ponto de partida. Eu fui coabitando com a tua existência em mim, dia apos dia, ate que deixei de nos distinguir, e deixei de saber quem tinha feito os planos para nós. Os desenhos que ias fazendo para o nosso futuro eram coloridos por mim, era um trabalho a duas mãos. Quando chegaste e me mostraste os teus sonhos, julguei que era dos meus que falavas.
Sou quem sou porque me quiseste assim.
Havia uma folha de papel no móvel junto a porta de entrada, onde tinhas escrito o teu plano, nunca lhe prestei atenção e, com o passar do tempo foram-se acumulando outros quantos papeis com outras coisas sem importância. Construí a minha vida em cima de um plano que desconhecia por completo. Tu ignoravas o facto de eu ignorar os teus propósitos. E na ignorância da nossa relação vimo-nos sem relação nenhuma.

Fui por breves segundos na minha vida aquilo que fizeste de mim. Fiz dos teus planos a minha estrada. Construí toda a minha personalidade a volta disso. Foi uma fracção de segundos, no total de dias de que é feito a minha existência. Foste uma historia sem ponto final durante tempo de mais.

Quando saíste, exactamente com a mesma pressa com que entraste, tive a certeza que não voltavas mais, porque nunca cá estiveste realmente.

E a casa que construímos nos nossos sonhos é um sonho que nunca existiu.

"I'm not to end in shame
to fight an endless lie
I'm not to play a game
I won't be on your side"

05/09/2008

Quando decidires cair, cai sozinho.

E, se achares que precisas da minha mão na tua
Só mais uma vez, só com um pouco mais de força
Lembra-te que me deixaste sem mãos
Sou vazia sem ti

Quando decidires partir, parte sozinho.

Se precisares dos meus passos a ritmar os teus
Percebe que me deixaste sem ritmo
Sem chão
Sou coisa nenhuma sem ti

Vai e não voltes
Cai e não te levantes

Hoje sei existir sem ti, mesmo que isso me obrigue a não existir.

Breath in Breath out

15/07/2008

Foi a tua voz


Foi a tua voz. Hoje sei. Demorei tanto tempo a perceber, fascinei-me com tantas coisas do teu mundo, tantas coisas de ti, que perdi a essência do que nos ligou. Hoje sei, foi a tua voz.
Mesmo antes de a dirigires à minha pessoa. Quando te ouvia a falar para os outros, lá longe no teu cantinho. A tua voz doce, terna, forte, meio rouca. A certeza que investias em cada palavra. Foi a tua voz. Quando dizias piadas e, fazias me rir em segredo. Quando falavas para os teus amigos, para as tuas amigas, nunca para mim. Mesmo sem saberes, mesmo sem eu saber, foi a tua voz que me prendeu a ti, logo desde o primeiro minuto.

E depois foi uma dança, de truques e malabarismo para chegar ate ti. Inventei historias, enredos e todo o tipo de coisas para te fixar a atenção em mim. Hoje sei, meu amor, foi a tua voz.

Agora dançamos juntos e as nossas vozes cantam ao mesmo ritmo. Hoje é a tua voz que me embala à noite e me acorda logo pela manha.

Hoje sei, foi a tua voz, meu amor.


"Ride me off into the sunset
Baby, I’m forever yours
It’s the way you love me
It’s a feeling like this
It’s centrifugal motion
It’s perpetual bliss
It’s that pivotal moment
It’s unthinkable
This kiss, this kiss
This kiss, this kiss"

05/07/2008

Seca-me a alma quando me bebes as palavras

E, porque me sinto fragil, sem abrigo

Quando os teus pés caminham ao lado dos meus

Devias ser chão

Mas

És baloiço


Perco o controlo do impulso

Balanças um pouco mais, troçando das minhas certezas

Quando perdermos o chão, caimos os dois




Devias ser queda

Mas

És começo

"I gotta tell you what I'm feelin' inside,
I could lie to myself, but it's true
There's no denying when I look in your eyes,
baby, I'm out of my head over you"

01/07/2008

Estoicismo

Estavas sentado em cima das tuas razões, daquelas que te dão segurança. Teimas em ser certo mesmo quando estás perdido. Ris-te das confusões. És sábio em cada decisão, em cada palavra. Racionalizas os sentimentos, as paixões.
És um banco de pedra, um porto seguro, uma estaca, uma ancora.
Tomaste a liberdade de ser pouco livre e de viver condicionado ao que te é conhecido. Não procuras grandes aventuras, desfrutas o que a natureza te dá. Não corres depressa de mais, não esperas tempo de mais, não segues caminho sem certeza do sentido. Não te apaixonas por aquilo que ainda não cativaste.

Estavas sentado em cima das tuas razões. Rodeado daquilo que conheces. No conforto das coisas que te fazem sentir seguro. Perdeste-te um pouco nas tuas certezas, sentaste-te lá naquele banco de razoes, à espera que o caminho ganhasse contornos definidos, para poderes avançar. És assim.
Estóico.

Mantinhas a tua habitual calma e o teu rosto marcado de saberes. As mãos firmes sobre as pernas rectas. Uma aparência daquilo que te tornaste aos poucos, quando tomaste a liberdade de deixar de ser livre.

Quando passei por lá e, me sentei ao teu lado, vi o teu mundo tremer.
Abalei as tuas certezas.

Um dia vais abandonar as tuas razões. Vais esquecer o que te define
E vais correr... Depressa de mais,
hás-de cair e, aprender a apreciar o acto de reerguer. Vais seguir um caminho qualquer pouco certo, em busca de algo que te devolva a vida.
Um dia vou desamarrar-te de ti e levar-te comigo

Há um mundo, pouco racional, cheio de tantas outras coisas, que te quero mostrar

Vais abandonar as tuas razões, as tuas certezas, vais voltar-te indefinido.
Eu mostro-te o caminho.

30/06/2008

Lembras-te de todos os momentos? De todos os beijos? De todas as noites? Lembras-te das tristezas? E das alegrias? Lembras-te das despedidas? Lembras-te dos pesadelos e dos sonhos? Lembras-te das esperas? E dos atrasos? Lembras-te dos abraços?
Lembras-te de todos os dias, de todas as horas, de todos os minutos? Lembras-te de mim? Como eu era? Como nós eramos? Lembras-te de nós quando ainda não existíamos?

Eu lembro-me de ti, de te ver antes de tu me veres. De ouvir conversas de longe para perceber o teu nome. Lembro-me do primeiro beijo. Lembro-me da primeira mensagem. Lembro-me do dia e da hora que me disseste que querias ficar perto de mim. Lembro-me de cada hora que chorei por ti, e de todas as horas que me fizeste rir.
Lembro-me de te virar as costas. Lembro-me de me afastar de ti. Lembro-me de ficar paralisada, à espera que chegasse a hora. A tua hora. A hora de me vires buscar.

E vieste. E o tempo deixou de ser decrescente. Agora conto cada minuto e junto-os aos minutos felizes que fazem parte da minha história. Acertamos as horas e os passos, deixamos de ser desconexos.
Não sei como conseguimos. Não sei se fizemos tudo certo. Não sei se fomos sempre justos. Não sei ao certo se era certo ser assim.

Sei que houve uma hora, num sitio qualquer, que nos cruzamos. E sei que ficamos por lá a inventar histórias. Agora perdemo-nos, como fazíamos antes. Mas já não estamos sozinhos.

Tens me para sempre do teu lado. Em todas as horas, minutos e segundo que me quiseres.
Para sempre...
Pois para sempre é sempre que quisermos.


[Porque eu ainda escrevo cartas de amor]

20/06/2008

Não sabemos muito bem o que fazer com o peso do que carregamos, temos o habito, incorrigível, de amarrar o passado às costas, carrega-lo para o presente e, de preferencia, perpetua-lo no futuro. É natural em nós a falta de força para abrir a mão, para largar o que nos pertence (correcção: o que nos pertenceu).
Mas a vida tem destas partidas, um dia, inevitavelmente, vai nos ser pedido espaço no coração para coisas novas. Saberemos nós arrumar tudo o que já vivemos e, mesmo assim, ter espaço para continuar a viver? Ou será preciso abrir a mão de uma vez por todas e largar definitivamente as coisas que agarramos ao longo dos anos, ou ate as coisas que nos agarraram a nós?
Quando transbordamos, há sempre alguma coisa para deitar borda fora. Aprendemos desde muito novos a distinguir o que nos é essencial e o que não o é assim tanto. Por outro lado aprendemos a não desperdiçar nada, a guardar as coisas velhas no sótão.
Irá haver um dia para arrumações, e nesse dia teremos de abrir mão daquelas coisas velhas.

27/05/2008

, ; .

Faz-te uma certa confusão a minha excessiva preocupação com a normalidade Parecer normal Alias ser de facto normal Assusta-te um pouco os convenientes As virgulas bem colocadas Os pontos finais colocados com primor no final de cada pensamento Assusta-te o silencio do bom senso E as palavras escolhidas a dedo Detestas as frases que me recuso a proferir e os risos que guardo nos lábios Detestas as revistas de moda em que me prendo de manhã Detestas que me levante no autocarro para dar lugar a alguem Detestas quando digo que sim só para não ir contra a maioria normal Não gostas que me prenda neste perfeccionismo inato Não gostas da anormalidade que me concede a minha normalidade Normalmente ficaria zangada por não me aceitares como sou Por não me achares correcta Ficaria chateada irritada exigiria provas do teu amor e da tua lealdade Aquelas coisas que os normais fazem quando estão ofendidos Eu não me ofendo Porque há dias que posso ser anormal e aceitar só porque me apetece que me aches banal Já nem me importo Já não me fere a alma nem me inunda os olhos Quando dizes coisas que não fazem sentido És tu o anormalmente normal que me acha errada só por querer ser as vezes só mais alguem igual aos outros


Hoje não há ponto final paragrafo nem virgula para retomar o folego
Hoje não há pausas na loucura

És fogo perdido

Deixo espaço entre as linhas para guardar lugar para o que sobrar de nós. Quando explodirmos. Quando se der o rebentamento do que somos.
Não sabes, ninguém te explicou, ninguém te contou as histórias de encantar que eu vivi. Não percebes a linguagem e, ficas sempre distante demais para me apreciares a melodia.

És fogo perdido de uma fogueira extinta.

Queimas por dentro aquilo que os outros teimam em banalizar por palavras que alguem decidiu inventar. Ardes. E pegas-me fogo, de dentro para fora. Enlaças-me nos teus braços e não me largas. Manténs a distancia mental que te faz pertencer sempre primeiro a ti e, talvez num dia distante, um pouco a mim. Ofereces-me calor, com um sorriso sincero, só para me fazeres arder. Para me tornares cinza. Pó. Não te chegas nunca a afastar, porque nunca estiveste verdadeiramente perto. És calor exagerado para fogo apagado.

És combustão espontânea.

E não sabes não ser assim. Passivo-agressivo. Ausente-presente. Sincero-maniaco. Meio-menino-meio-crescido.
Ardes por dentro, devagar, lentamente. Sem sofrer. E queimas todos aqueles que ousas tocar.
Deixas um pouco de ti para trás, quando sais de onde nunca estiveste.

És menino-perdido-sincero-agressivo-ausente que perdeu o caminho para casa.

E arde dentro de ti aquilo que ninguém te ensinou a dizer. Há palavras, embora raras, que existem para serem ditas, usadas, abusadas, gastas. Há coisas que se inventaram para serem vividas. E histórias de encantar que acontecem. Tu não sabes menino-fogueira, ninguém te ensinou.
Quando soltares as palavras difíceis, talvez te sossegue o coração.
Um dia, quem sabe, não vens tu enlaçar-me nos teus braços, de uma maneira mais doce e, talvez, murmures ao meu ouvido aquilo que te arde por dentro.
Nesse dia, tenho este espaço entre as linhas para nos guardar por cá. Não precisas de apagar o fogo que há em ti. Mas há espaço cá fora para o que temos dentro de nós.

Um dia vais aprender a dizer


Amo-te

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