Só para te lembrar...

Finalmente aprendi a lidar com a tua ausência, não que se tenha tornado mais fácil, simplesmente tornou-se menos doloroso. Hoje aprendi a apreciar as coisas vulgares da vida, aquelas que nunca damos valor. Hoje o Sol tocou-me a pele e aqueceu-me o coração, hoje o vento soprou sobre o meu cabelo e fez me balançar. Tu não estavas cá para me ver a sorrir e, mesmo assim, eu sorri para ti.
Habituei-me de tal forma a ver todos os que amava a partir que estranhei quando te vi voltar. És diferente, sempre o soube. Há em ti algo maior, mais forte.
Sei que não decidiste partir, a vida impôs-nos esta distancia e, mesmo assim permaneces aqui, tão perto, dentro de mim.
Tantas vezes convivi com pessoas que já tinham partido e que, por teimosia, permaneciam ali, ao meu lado, como se houvesse raízes maiores a prender-nos ao chão, tantas vezes fui eu que me ausentei de relações sem futuro e fugi para dentro de mim sem aviso prévio. Contigo foi diferente. Ninguém fugiu sem antes avisar que ia voltar. No dia que partiste para esse lugar distante onde te prendem longe de mim, soube que voltarias. E voltaste. Voltas sempre, todos os dias, de uma forma mais ou menos literal.
Faz-me falta o teu cheiro, o teu sorriso, o teu mau humor matinal. Faz-me falta as tuas piadas, o teu andar. Faz-me falta o teu toque e, o teu respirar perto do meu pescoço. Faz-me falta os teus abraços, os teus beijos. Faz-me falta a tua voz, o som da tua voz a entrar em mim. Alguma vez te disse que quando falas é como se cada palavra tua percorresse todo o meu corpo ate encontrar moradia no meu coração? As coisas importantes ficam para sempre guardadas em nós, mesmo que não sejam para sempre lembradas, elas permanecem lá, no fundo de nós. Tu estás emaranhado em mim. Tu confundes-te com o que eu sou. Eu sou tua e, muitas vezes sou tu. Dói-me as tuas feridas e, alegra-me as tuas vitorias.
Há em nós algo maior que as distancias, há em nós coragem para lutar e, acima de tudo há em cada um de nós um pedaço do outro. Estas em mim. Estou em ti.

Fazes-me falta.

Volta depressa.





No price is too high to pay for the privilege of owning yourself.
Friedrich Nietzsche



Abre as mãos, larga as amarras dos que não te pertencem, mantém-te são, estável, inabalável. Apaga as memorias que já não são tuas. Não sorrias e não chores. Não sejas quem querias ser, não sejas quem os outros gostariam que fosses, não sejas quem és. Não sejas ninguém. Volta-te de mãos vazias e, principalmente, cheio de espaço entre os braços. Volta-te como ser novo, vazio das coisas sem importância, vazio de histórias, de memorias, vazio de fantasmas. Volta-te como pessoa indefinida, sem conceitos, sem opiniões formadas.
Vais ter espaço entre as mãos para agarrares todas as oportunidade, ter lugar no meio dos braços para fortes abraços, espaço para aprender, espaço para amar. Vais ter espaço para te criares, ao lado de quem quiseres, como se fosse sempre a primeira vez. Vais ser tu, sem barreiras, aventureiro e livre. Vais saber escolher o melhor caminho, a melhor companhia. Vais ser teu e, vais saber dar o melhor de ti. Porque em ti não há nada do que foste, nada do que te fizeram ser. De ti, agora, existe um vazio pronto para preencher, um vazio pronto para recomeçar. Constrói-te, do zero, como se fosse a primeira vez.

(Re)Ergue-te e, começa de novo.
Se pudéssemos não escolheríamos todos começar de novo?

Sinais

Existe uma pequena diferença entre o que tu dizes e o que querias dizer. Assim como, existe uma certa distancia entre o meu lugar e o teu caminho. Tal como há espaços por preencher nos vãos que os nossos corpos já não preenchem. Existe uma certa diferença entre o que eramos, o que somos e, o que gostaríamos de ser.
As diferenças são subtis,e no entanto, estão sempre lá, lado a lado com os nossos erros. Pequenos sinais da nossa ausência nas histórias de encantar.
Perguntei-me muitas vezes se saberia perceber os sinais, hoje sei que os sinais são sempre ténues de mais e, feitos para não serem vistos em primeira mão. Hoje sei que temos de errar a primeira vez, temos de nos magoar na segunda, para só na terceira tentar fazer melhor e, mesmo assim, provavelmente, falhar.
Sei que um dia vou ter a felicidade de ver os sinais, sei que eventualmente vou dar-lhes atenção e, dispender um pouco do meu tempo a analisar a situação.
Sei que um dia os espaços vazios que ficam entre os nossos corpos, enquanto sonhamos descansados com coisas que já não partilhamos, vão ser sinais que eu vou perceber. Sinais que me fazem avançar.

(Depois d)O Fim


Estavas enganado, o som que se ouvia ao longe, era da chuva mansa que consolava o chão. Já não era eu sentada do lado de fora do teu quarto a chorar. De todas as vezes que fez frio dentro de nós foste tu que devolveste o calor, foste tu sim, que chegaste e, abriste todas as janelas, foste tu que me mostraste o lado do Sol depois da noite cair. Foste sempre tu, em todos os momentos. Depois de me habituares ao teu lado quente, depois de me desprenderes dos vazios que carregava em mim (e que julgava serem as minhas coisas preciosas), depois de me mostrares ate que ponto um ser humano pode encontrar a felicidade, decidiste desamarrar os nós.
Não te culpo de, no teu caminho, não teres guardado lugar para mim. Não te culpo de teres, naturalmente, crescido. Não te culpo das tuas poucas palavras finais (ou da total ausência delas). Não há culpados nas histórias que não são de encantar. Não há vilões, nem heróis. Não há finais felizes.
Dizem que é loucura contar todos os segundos de um dia, pois eu contei todos os segundos de todos os dias da tua ausência em mim. Ate que me perdi, finalmente. E, nesse dia troquei-te as voltas. Já não sou eu do lado de fora do teu quarto, já não são as minhas lagrimas no meu rosto, já não sou eu, em parte alguma. Perdi-me e, não volto.




...
Neste infinito fim que nos alcançou
guardo uma lágrima vinda do fundo
guardo um sorriso virado para o mundo
guardo um sonho que nunca chegou

...

Incubação - Fase terminal

Incubas os teus sentimentos dentro de ti. Resguardas as tuas emoções e, controlas todos os movimentos do teu coração. Tomaste a razão como tua amiga e largaste a mão ao amor. Largaste a mão de ti, de mim, do futuro, dos bons dias. Eu sei que choras ainda quando a noite já vai longa e, o sono não te embala como os meus braços o faziam. Eu sei que volta e meia ainda pensas em mim e, já muito raramente ainda pensas em nós. Eu sei que te custa dormir porque não queres sonhar [tens medo de não ter vontade nenhuma de voltar a acordar].
Mas tornaste-te numa incubadora, guardaste dentro de ti tudo o que fui e já não me sabes tirar de lá. Porque é mais longe e fundo o que fica por dentro de nós. Eu sei que o privilegio de ter chegado tão perto do que és, me fez ficar tao longe de quem queres ser. Eu sei que há barreiras que não se quebram. Que há limites que não se ultrapassam. Eu sei que há lugares onde não se pode ir e, há caminhos que não devemos percorrer. Eu sei que do outro lado não há caminho para voltar. E, eu sei que de dentro de ti não há caminhos, nem lugares, nem bancos de jardim para descansar, eu sei que por dentro de ti estamos longe de tudo. E, que de lá – de dentro de nós – jamais iremos sair.
Incubas o nosso amor. E atas devagar os laços que me vão prendendo cada vez mais ao teu fundo, lá perto das coisas do passado. Matas-me em ti, devagar, ao mesmo tempo que me sussurras ao ouvido “tu ficas bem, meu amor”.







Aprende-se a calar a dor,
a ternura, o rubor,
o que sobra de paixão.
Aprende-se a conter o gesto,
a raiva, o protesto,
e há um dia em que a alma
nos rebenta nas mãos.

Queda

Em momento de queda, como quando se tropeça, a caminho do chão, enche-se a memoria de prazer. [Porque a memoria tem prazer em recordar e tem a capacidade de só recordar as coisas boas que interessam lembrar.] A caminho do chão, em milésimas de segundos, lembras-te do primeiro sorriso que recebeste daquele menino de olhos cor de mel. Lembras-te do primeiro amor, do primeiro beijo. Lembras-te daqueles dias azuis. Lembras-te das coisas boas e, recordas o que aprendeste com as coisas más. Em queda despropositada, a caminho do chão, levas as mãos à frente para te proteger, porque mesmo quando escolhes cair há algo em ti que resiste a tua vontade de destruição. Há algo em ti que quer viver, algo que quer mais uma hipótese de sorrir. Já perto do chão e, da dor inerente à tua escolha, tens tempo de te arrepender. A queda traz um silencio ensurdecedor e o impacto final é atordoante. Deixas de ouvir, deixas de ver, perdes todos os sentidos. Na tua escolha, pouco pensada, recebes o silencio e a falta de sentir. E no escuro em que mergulhas pedes baixinho só para ti, que possas voltar a erguer-te, nem que seja para escolheres cair noutro dia qualquer, porque até da queda final queres tirar partido e, não é justo não sentir a dor de cair.
Quando acordas sentes um trago amargo na boca e, provas do teu sangue. Estas machucada, ferida, dorida, magoada. Mas continuas a ter mais dias azuis para viver.
Voltas a erguer-te e esperas pela próxima queda.
Depois de tanto tempo a inventar histórias de encantar, depois de perder tanto tempo a contar mentiras, depois de tantos dias de ilusões, depois de tantas vezes me enganar, depois de tantas horas andar perdida, depois de uma vida inteira sem saber de mim, depois de todas as coisas que não fiz, depois de todas as coisas que não tive coragem de dizer. Quantas vezes são vezes suficientes para se parar de tentar?







Já podes voltar?



Duas gotas




E estas aqui, onde sempre estiveste desde que começamos a falar. Não me lembro do motivo que nos juntou, nem quais foram exactamente as primeiras palavras, sei que desde então estas aqui. Nunca fomos de falar demais, nunca contamos segredos no escuro da noite, nunca partilhamos histórias daquelas que nos fazem chorar. No entanto continuas aqui. E és, talvez, a pessoa que melhor me entende. Sabes do que falo mesmo quando eu pouco falo. Sentes o que eu escrevo e, eu embalo-me nas tuas palavras antes de dormir. Somos feitos da mesma matéria.
Somos pequenos demais para o turbilhão de coisas que o mundo engloba. Choramos muito. E, acordamos todos os dias a pensar que vai ser um dia diferente, mesmo que vamos ao mesmo cafe, mesmo que leiamos os mesmos livros, que nunca acabamos, mesmo que sorriamos para as mesmas pessoas, mesmo que cheguemos a casa de mãos a abanar, como sempre. Voltamos a dormir e a pedir um dia diferente amanha. E, acordamos sempre num dia diferente que acaba por ser igual.
E somos diferentes do resto do mundo que nos parece todo igual e, somos diferentes por nos acharmos diferentes, quando toda a gente nos acha igual. Sofremos muito, porque no fundo gostamos de sofrer. Vivemos a tropeçar nas nossas asneiras e dizemos que o fazemos de proposito. Seguimos sempre o caminho mais difícil porque não sabemos ser fáceis. Vivemos a espera do príncipe encantado, num cavalo branco que sabemos que não vem. E sonhamos muito, sonhamos demais. E choramos mais ainda por sabermos que somos pequenos demais para realizar os nossos sonhos.
Estás na parte de dentro do que escrevo, estas do lado de cá do que sinto e, é por dentro, onde nos tocamos, que somos iguais. E, as coisas todas que não te digo, as palavras todas que poupo em não falar contigo é só por saber que vives do lado de dentro de mim, onde sei que me conheces de cor e, onde o silencio é a minha dor. Tu que sentes o mesmo que eu, tu que estas no avesso do que sou, és a parte de mim que não quero partilhar.

Somos duas gotas num mar rabugento.






[Tu sabes quem és]
Eu fiquei imóvel, no canto onde me deixaste. Não me lembro de pestanejar. Não me lembro de chorar. Sei que fez Sol e, depois chuva. Sei que o dia se fez noite e a noite teve fim. E eu fiquei lá quieta, meio amarrotada, com a cabeça encostada aos joelhos. Não levantei a cabeça a tempo de te ver partir, por isso permaneci na esperança que ainda lá estivesses, para sempre, como sempre dissemos que seria.
Eu estava lá, no canto onde me deixaste, quieta em silêncio. E foi a tua mão a amansar-me os cabelos que me fez tremer. Era o teu cheiro de novo a invadir-me os sentidos. Permaneci, ainda assim, quieta, imóvel, sem pestanejar, com a cabeça encostada aos joelhos sem te conseguir ver.
Sentaste-te encostado a mim. Encostaste a cabeça aos joelhos e, esperamos. Voltou a fazer-se noite e, frio e, voltou o Sol e, depois a chuva. Não pestanejamos.
Quando te olhei finalmente e, tu fixaste os teus olhos em mim, lembrei-me das vezes todas em que te pedia para ficares acordado só para te poder olhar nos olhos, em silencio. Lembrei-me das vezes todas que me abraçavas contra o teu peito e quase me sufocavas por não saberes fazer melhor. Lembrei-me das noites que chorei no teu colo. E daquelas noites em que abriste a tua alma a mim, mesmo de olhos fechados. Lembrei-me das vezes todas em que os teus lábios quentes me calavam as dores. Lembrei-me das vezes todas em que as tuas mãos me impediram de cair.
Voltaste-te a levantar, passaste a tua mão no meu cabelo e, voltaste a partir. Desta vez tinha a cabeça levantada e, os olhos aguados conseguiram ver a tua silhueta a desaparecer no fundo da rua. Tinhas de partir e, eu só queria saber partir contigo. Mas eu... Eu fique imóvel, no canto onde me deixaste.
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