10/01/2005

O meu desenho

Não sei o teu nome, nem a tua idade. Só sei que a cor dos teus olhos é diferente da minha. Sei que os teus cabelos são lagrimas. E que o teu corpo é um desenho meu.
Procurei, desesperadamente, o teu número na lista. Mas não havia lá ninguem com o nome menino dos olhos diferentes e do cabelo choroso. Procurei na net, por fotografias, mas não estavas em nenhuma.
Só te voltei a ver mais tarde, num sonho meu. Mas não tive tempo para te entregar esta carta. Estavas com pressa para partires para o sonho de outra menina. Eu não tenho ciumes, sabes? Afinal, és o meu desenho.

Acho que tu ainda não percebeste, mas não faz mal, é por isso que te escrevi esta carta.


Querido menino dos olhos diferentes e do cabelo choroso,

Vi-te ontem pela manhã a passeares nos meus lugares. Ninguem te disse que não se invade assim a vida dos outros? Tens de bater a porta, pedir licença. Tens de respeitar o espaço dos outros. Por favor, espera seres convidado. Não tinhas o direito de entrar assim, muito menos de lançar aquele olhar e deixa-lo lá.
Não tenho grande curiosidade em saber o teu nome. Não quero saber a tua idade. Não me interessa se tens filhos. Não me interessa se não gostas de mim. Se vives nas estrelas, na lua, por ai, perdido no universo.
Ninguem te disse que não se anda assim, perdido? Desajeitado? Ninguem te disse que não se fuma assim, tão lentamente? Ninguem te disse que não tens direito de passar a mão pelo cabelo dessa forma? Estamos proibidos de amar aqui. Não sei de onde vens, mas tens muito para aprender. Não podes cativar assim as pessoas. Não podes aparecer só quando te apetece e desaparecer quando me apetece a mim.
Não tens o direito de me estender a mão. E se eu aceito o convite? E se eu vou contigo, perder-me por ai, nesse universo, longe desses lugares onde me escondo de dia? E se numa dessas noites, num desses sonhos não volto mais? Não me prendas onde não me podes aguentar. Tu te tornas, eternamente, responsavel por aquilo que cativas.
Esses teus olhos são oceanos e, teus cabelos mares de lagrimas. Como posso não te amar?

Volta lá para a terra de ninguem e, não voltes a entrar em mim. Eu já te chamo. Quando eu quiser. Quando eu puder.

Não me ensines a voar.
Da, que irá ser, tua
Gaivota que não sabe voar

7 comentários:

  1. O mal é mesmo esse......é aprendermos a voar......

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  2. Escreves muito, muito bem.
    Gostei muito.
    Parabéns.

    :)

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  3. Só para voltar a frisar: ADOREI o teu blog. Nomeadamente este post.
    Lindo!

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  4. Infelizmente o nosso "desenho" entra sempre sem pedir e nem sempre nos dá a mão para nos ensinar a voar...
    Muito bonito.

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  5. nita_, estou aqui!!!!!!! Sou eu.

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  6. Muito muito bonito,ya quisiera yo ser asi de sentimental,muy bonito. Besos

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  7. Inconfidente: É viciante não é? Voar... Sonhar... Sei lá! A verdade é que muitas vezes nos roubam as asas.
    Obrigada pela visita.

    Lucky Luke: Partilhamos o gosto de nos lermos mutuamente. As vezes quando escrevemos as coisas por impulsos de sentidos tornamos tudo mais justo, mais verdadeiro, mais bonito.

    Babies: É um prazer ver-te por cá. :) obrigada
    É mesmo isso. Quando nos fazem sonhar... É incrivel como nos custa manter os pes no chão...

    Anonimo: Olha, é um prazer ver-te por ca pah! LOL
    Beijinhos da "nita_"

    Rojgat: É bom saber que já percebes melhor portugues e, é bom saber que gostas :) quisera eu ser menos assim...

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